Autor: Marcus Fontes
A lideran?a tem sido objeto de estudo e debates no ?mbito internacional enquanto um fen?meno inerente aos processos de transforma??o social e um aspecto entrela?ado com as bases de estrutura??o e organiza??o da sociedade. Considerando-se as v?rias dimens?es desse dom?nio, nas ?ltimas d?cadas, diversas linhas de investiga??o v?m debru?ando-se sobre a an?lise dessa pr?tica nas ci?ncias sociais, na pol?tica e na educa??o. Esses estudos t?m buscado compreender como a lideran?a vem se reorganizando nas rela??es sociais na medida que as transforma??es na sociedade se d?o ao longo da trajet?ria hist?rica, al?m de dedicarem especial aten??o ao papel da lideran?a e suas posi??es dentro das organiza??es. Outro tema subjacente a esse dom?nio tem sido a compreens?o de como a lideran?a possibilita que as comunidades liderem os processos de mudan?as (Redondo-Sama, 2016, pg. 74).
A respeito das transforma??es sociais, Aubert et al (2016) afirmam:

?Os velhos padr?es e normas que costumavam orientar nossa vida na sociedade industrial est?o perdendo sua legitimidade na sociedade atual. A revolu??o tecnol?gica da sociedade da informa??o, o fen?meno social da globaliza??o, o aumento dos riscos e das op??es, entre outras caracter?sticas, fazem com que as pessoas precisem cada vez mais se comunicar e dialogar para tomar decis?es em rela??o ao presente e ao futuro, cheio de op??es que s?o produto de novos valores, normas sociais e interc?mbios culturais?. (AUBERT et al; 2016, pg. 28)

Nessa linha de estudos, Redondo-Sama (2016), em seu artigo ?Lideran?a e participa??o comunit?ria: uma revis?o da literatura?, faz uma importante contribui??o nesse campo de pesquisa. Em seu trabalho, ela exp?e um conjunto de te?ricos que desenvolveram seus estudos fazendo uma liga??o entre a lideran?a e o papel das comunidades na melhoria nos processos de transforma??o social. Entre os artigos?evidenciados no trabalho da autora, s?o citados temas como: lideran?a em comunidades profissionais e comunidades de pr?tica, lideran?a em rela??o ? participa??o e envolvimento familiar e lideran?a em rela??o a outros membros da comunidade.
Ainda sobre isso, cita Redondo-Sama (2016):
?Nas ?ltimas d?cadas, um conjunto de pesquisas estudaram a liga??o da lideran?a com o papel das comunidades na melhoraria das transforma??es sociais.? ? ? ? ? ? ? ? ? ? Ressonando com essa abordagem, lideran?a transformacional (Burns, 1978), lideran?a distribu?da (Gronn, 2002; Spillane, Halverson & Diamond, 2004),? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? n?o- eu, lideran?a de professores posicionais (Frost, 2014), lideran?a compartilhada (Lambert, 2002) ou lideran?a dial?gica (Padros & Flecha, 2014)? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? desempenharam um papel de lideran?a em partes muito diversas do mundo? (REDONDO-SAMA; 2016, pg. 73).
Entre as abordagens apontadas por Redondo-Sama, em sua revis?o te?rica, est? a Lideran?a Dial?gica desenvolvida por Padros e Flecha (2014 apud Redondo-Sema, 2016, pg. 84). Essa conceitua??o considera ?o processo atrav?s do qual as pr?ticas de lideran?a de todos os membros da comunidade educacional s?o criadas, desenvolvidas e consolidadas, incluindo professores, alunos, fam?lias, pessoal n?o docente, volunt?rios e qualquer outro membro da comunidade?.
A escola da atualidade est? presente em um contexto social e cultural diferente do vivenciado pela escola que herdamos do s?culo XIX. O advento das novas tecnologias de comunica??o e da informa??o, e o processo de reorganiza??o da produ??o global impactam a forma na qual o mundo vem se organizando atualmente e a constitui??o das rela??es sociais. Esse cen?rio de transforma??es, do final do s?culo XX, gera para as diversas estancias da sociedade novos desafios, demandando uma revis?o de suas bases e um incremento de novas compet?ncias para a conviv?ncia em comunidade.
Nesse contexto de crise e busca de alternativas de solu??es, a Comunidade de Aprendizagem surge como proposta educativa que promove transforma??o educacional, social e cultural na escola. Apoiada em princ?pios e atua??es que t?m como base a queda do autoritarismo, a promo??o da democratiza??o escolar e uma maior participa??o efetiva da comunidade nas decis?es educativas da escola, a Comunidade de Aprendizagem busca promover espa?os escolares mais igualit?rios e dial?gicos.
Tendo em vista o aqui exposto, esse trabalho tem como objetivo propor uma reflex?o acerca do papel do diretor escolar na pr?tica da gest?o democr?tica e dos processos decis?rios descentralizados de uma Comunidade de Aprendizagem, como?tamb?m propor estrat?gias para a pr?tica da lideran?a dial?gica como caminho para a participa??o comunit?ria nas decis?es das prioridades da escola, em espec?fico a realiza??o das comiss?es mistas.
Um segundo objetivo desse estudo ? propor um quadro de refer?ncia para gestores de uma Comunidade de Aprendizagem, composto por um conjunto de compet?ncias que comp?em um perfil aderente a uma lideran?a igualit?ria e dial?gica.
DESENVOLVIMENTO
Para responder aos objetivos descritos na se??o anterior, esse trabalho far? uma revis?o bibliogr?fica calcada nos referencias te?ricos do Comunidade de Aprendizagem, para embasar o di?logo em torno da participa??o da fam?lia e da comunidade nas decis?es educacionais da vida escolar. Esse estudo tamb?m utilizar? as contribui??es te?ricas de Helo?sa L?ck (2009; 2012) como refer?ncia na discuss?o sobre a gest?o democr?tica e na proposi??o de um quadro com algumas principais compet?ncias esperadas de um gestor escolar de uma Comunidade de Aprendizagem. Inicialmente, o contexto da pesquisa ser? apresentado de modo a descrever a transforma??o da escola Municipal Sebasti?o Jos? da Silva, localizada na zona urbana da cidade de Belo Jardim ? PE, em uma Comunidade de Aprendizagem.
Em 2016, o Instituto Concei??o Moura, organiza??o de investimento social privado do Grupo Moura, que atua em Belo Jardim ? PE no apoio ? educa??o do munic?pio, no ?mbito de sua parceria com o Instituto Natura, viabilizou a apresenta??o da proposta do Comunidade de Aprendizagem ? Secretaria Municipal de Educa??o. Os dirigentes da Secretaria acolheram a ideia e lan?aram para a rede um convite de apresenta??o do modelo educativo e seus princ?pios para todos os gestores escolares. Nesse primeiro momento de apresenta??o geral 15 gestores escolares compareceram para escutar a proposta do Natura. Com base nesse primeiro encontro, a Secretaria Municipal de Educa??o sinalizou a indica??o da participa??o de 03 escolas p?blicas: Manoel Teodoro (escola situada em zona rural – localidade da Serra dos Vento), J?lio Magalh?es (escola da zona urbana, com hist?rico de boas notas do IDEB) e a Sebasti?o Jos? da Silva (escola tamb?m localizada na zona urbana, em um territ?rio adensado populacionalmente e em condi??o de vulnerabilidade social).
Os 03 gestores dessas escolas levaram ? frente a proposta de apresentar aos seus professores, funcion?rios e pais dos alunos, o Comunidade de Aprendizagem. Sendo?assim, foram organizados 4 momentos formativos para apresenta??o dos referencias te?ricos e princ?pios do Comunidade de Aprendizagem ?s escolas, como tamb?m promover momentos de di?logo com os familiares e a comunidade. O resultado dessa intera??o foi positivo, e a proposta do Comunidade de Aprendizagem foi bem acolhida por parte dos familiares. No entanto, essa mesma receptividade n?o aconteceu com o p?blico de professores da escola Manoel Teodoro e J?lio Magalh?es. Esses tiveram uma postura contr?ria, rejeitando a possibilidade de ades?o ao projeto. Os professores justificaram sua rejei??o, argumentando que ?os pais n?o assumiriam a posi??o de voluntariado como proposto, e que o Comunidade seria um projeto a mais, trazendo mais tarefas para a grade de obriga??es do professor?. Entre as escolas que participaram dessa etapa de sensibiliza??o, apenas a Escola Municipal Sebasti?o Jos? da Silva teve total ades?o ao Comunidade de Aprendizagem, e, portanto, foi a escola piloto da rede.
O PROCESSO DE TRANSFORMA??O DA ESCOLA MUNICIPAL SEBASTI?O JOS? DA SILVA
A escola Sebasti?o Jos? da Silva est? localizada no bairro na Cohab III, um territ?rio adensado populacionalmente e inserido em contexto de vulnerabilidade social. Ela possui um quadro de 420 alunos e atua com os anos iniciais do ensino fundamental. Al?m disso, possui estudantes que participam do programa de corre??o de fluxo.
O processo de transforma??o da Sebasti?o Jos? iniciou com a ades?o da escola a proposta do Comunidade de Aprendizagem e prosseguiu com a realiza??o das etapas de implementa??o conforme a metodologia. A escola convidou toda a comunidade para a realiza??o da etapa dos sonhos1. Nessa fase mobilizadora, a escola construiu uma representa??o de uma ??rvore dos sonhos?, para reunir em sua copa o registro de como os professores, familiares, estudantes e demais integrantes da comunidade sonham a escola que querem. Em seguida, em reuni?o com familiares, professores e equipe gestora da escola, os sonhos foram lidos, analisados, separados por categorias e organizados em sonhos de curto, m?dio e longo prazo, de acordo com as prioridades da escola. A partir desse primeiro passo, foi dado in?cio a primeira comiss?o mista2 que?levou a frente alguns dos sonhos que a curto prazo poderiam ser realizados. Em paralelo a isso, algumas outras Atua??es Educativas de ?xito3 foram implementadas na escola: os grupos interativos, as tert?lias liter?rias, tert?lias pedag?gicas e a forma??o de familiares.
Ao longo de 2016 a escola avan?ou no seu processo de transforma??o4, de forma coesa. A escola teve uma forte ades?o dos familiares e comunidade que participavam das reuni?es abertas com assiduidade.
Devido as mudan?as que ocorreram na gest?o do munic?pio ao longo do ano de 2017, a escola Sebasti?o Jos? teve sua equipe gestora modificada, o que impactou o andamento da escola. A nova equipe que assumiu a gest?o n?o conhecia o modelo educativo e de transforma??o social do Comunidade de Aprendizagem, e encontra-se atualmente no processo de apropria??o dos princ?pios da Aprendizagem Dial?gica5 para dar continuidade ao legado constru?do nos dois anos de implementa??o.
Atualmente, a escola Sebasti?o Jos? continua sendo a ?nica escola que segue com a proposta de Comunidade de Aprendizagem em Belo Jardim ? PE.
A FUN??O SOCIAL DA ESCOLA E O PAPEL DO GESTOR DE UMA COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM
As mudan?as no processo de intera??o social do ?ltimo s?culo t?m provocado transforma??es em diferentes ?mbitos da sociedade, gerando uma crise de antigos paradigmas. No campo da Educa??o, esse reflexo n?o ? diferente, o que tem gerado novos desafios e aprendizados para a escola e para aqueles que a comp?e.
Sobre esse tema, aponta L?ck (2009):

?Novos desafios e exig?ncias s?o apresentados ? escola, que recebe o estatuto legal de formar cidad?os com capacidade de n?o s? enfrentar esses desafios, mas tamb?m de super?-los. Como consequ?ncia, para trabalhar em educa??o, de modo a atender essas demandas, torna-se imprescind?vel que se conhe?a a realidade e que se tenha as compet?ncias necess?rias para realizar nos contextos educacionais os ajustes e mudan?as de acordo com as necessidades e demandas emergentes no contexto da realidade externa e no interior da escola? (L?ck, 2009, p. 16).

A escola enquanto espa?o que promove transforma??o social, precisa garantir al?m da forma??o e aprendizagem dos seus alunos, o cumprimento de sua fun??o social. Essa dimens?o engloba a participa??o efetiva e ativa de todos os atores envolvidos nesse processo de forma??o humana e cidad?, principalmente a comunidade.
O INCLUD-ED6. Strategies for inclusion and social cohesion in Europe from education (2006-2011), projeto de pesquisa desenvolvido em diversos pa?ses da Europa e coordenado pelo Centro de Investiga??o em Teorias e Pr?ticas de Supera??o de Desigualdade (CREA) da Universidade de Barcelona, realizou 22 estudos de casos espec?ficos e 6 estudos de casos longitudinais, acompanhando a evolu??o das escolas envolvidas nos 4 anos do projeto. Ao longo desse per?odo, a pesquisa identificou as pr?ticas que efetivamente aumentam o desempenho acad?mico dos estudantes e melhora a conviv?ncia e as atitudes solid?rias no ?mbito escolar. O estudo constatou que as pr?ticas que geram maior aprendizagem s?o aquelas que trabalham com grupos heterog?neos e participa??o educativa da comunidade. Outro ponto tamb?m identificado pelo o estudo refere-se a alguns tipos bem sucedidos de participa??o dos familiares e da comunidade na escola. Entre os 5 modelos de participa??o analisados pela pesquisa (informativa, consultiva, decisiva, avaliativa e educativa), as participa??es educativas, avaliativas e decis?rias s?o as intera??es que possuem maior probabilidade de ?xito de participa??o das fam?lias e comunidade. No entanto, a participa??o educativa da comunidade foi comprovadamente o modelo que promoveu maiores e melhores resultados de aprendizado das crian?as (INSTITUTO NATURA, 2017, p.10).
Apesar da exist?ncia de in?meras evid?ncias cient?ficas que comprovam que a integra??o da escola com a comunidade e com as fam?lias tem sido identificada como um fator important?ssimo para o bom funcionamento escolar e qualidade de seu processo educacional, a ades?o para essa pr?tica no cotidiano ? um grande desafio. Entre os enfrentamentos encontrados est?o a falta de clareza do papel da comunidade na fun??o ativa dentro do espa?o escolar, al?m da sua pr?pria presen?a abalar as velhas estruturas do autoritarismo e centraliza??o de comando da gest?o.
Portanto, cabe ao gestor escolar ser o agente promotor do entendimento do papel de todos em rela??o ? educa??o e a fun??o social da escola. Mas o que acontece muitas vezes ? um entrave exatamente nesse dimensionamento das corresponsabilidades (L?ck, 2009, p. 18).
O Comunidade de Aprendizagem surge no ?mbito educacional e social como uma proposta de supera??o das desigualdades sociais e melhoria da aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes, por meio da implementa??o de Atua??es Educativas de ?xito e a participa??o ativa da comunidade e da fam?lia na vida educativa da escola.
Portanto, os gestores de escolas que aderem a proposta do Comunidade de Aprendizagem, precisam possuir ou desenvolver um perfil aderente aos princ?pios que fundamentam esse modelo educacional, j? que suas a??es ser?o limitadas enquanto forem limitadas suas compet?ncias e compreens?o sobre esse projeto.
No ?mbito da descentraliza??o das decis?es da escola e da democratiza??o da gest?o, um ponto fundamental a ser analisado ? a autoridade. Acerca desse assunto, Mello aponta que junto com as mudan?as que surgiram com a sociedade da informa??o e a cultura do globalismo, est? a crise das autoridades tradicionais, pois as rela??es sociais n?o se baseiam mais na hierarquia sustentada na autoridade. Ao contr?rio disso, houve na sociedade da informa??o um giro dial?gico7 nas rela??es e institui??es. (Mello, 2014, p.37).
Ainda sobre as rela??es autorit?rias, cita Mello (2014):
?da mesma forma, essas mudan?as atingem a escola e, diretamente, a sala de aula. O professor e a professora tamb?m n?o representam mais a autoridade? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? incondicional que representavam h? algumas d?cadas, e as crian?as e jovens, enquanto estudantes, tamb?m querem ter poder decis?rio, n?o aceitando tudo o? ? ? ? ? ? ? que a professora ou o professor lhes diz? (Mello, 2014, p. 37).
O di?logo como elemento para referenciar as rela??es e as a??es no Comunidade de Aprendizagem, incorpora o poder da argumenta??o como aspecto fundamental nas tomadas de decis?es, e na busca por valores como ?solidariedade, a justi?a e a igualdade, valores positivos e mais desejados por todos do que o autoritarismo, o poder indiscut?vel e a discrimina??o? (Mello, 2014, p. 40).
Com o giro dial?gico presente nas rela??es, os espa?os sociais buscam privilegiar muito mais a comunica??o, a decis?o participativa e o respeito ? diversidade. No contexto escolar, para que isso seja poss?vel, o processo comunicativo precisa estar a servi?o da transforma??o intencionada e dialogada da escola, entre profissionais, estudantes, familiares e comunidade do entorno (Mello, 2014, p. 60).
Para L?ck (2012), a comunica??o da gest?o escolar precisa contemplar reciprocidade, circularidade, interatividade, di?logo e retroalimenta??o (2012, pg. 117). Na vis?o da autora, s? a partir dessas caracter?sticas presentes na comunica??o, ? poss?vel se ter uma constru??o consciente de significados necess?ria para o posicionamento como sujeito diante das situa??es vivenciadas.
Tendo em vista essas reflex?es, fica evidente a import?ncia da figura do gestor escolar nos processos de transforma??o do Comunidade de Aprendizagem, e de que o seu perfil profissional precisa caminhar junto com uma s?rie de compet?ncias e atitudes que dialoguem com o modelo educativo dial?gico, democr?tico e igualit?rio.
Mello (2014), no ?ltimo cap?tulo do seu livro ?Comunidade de Aprendizagem ? outra escola ? poss?vel?, levanta uma indaga??o acerca do processo de transforma??o e os agentes educativos envolvidos nesse contexto:
?a escola, a comunidade e os familiares se encontram preparados para a realiza??o deste trabalho conjunto, de modo a aumentar as condi??es de igualdade na? ? ? ? ? ? ? ?rela??o entre elas por meio do di?logo. Estamos prontos para esse desafio? ? (Mello, 2014, p. 150).
Essa indaga??o de Mello (2014) pode ser dirigida para os gestores escolares: os diretores escolares est?o preparados para os desafios do processo de transforma??o do Comunidade de Aprendizagem? Est?o prontos para exercer uma gest?o mais democr?tica, igualit?ria e dial?gica?
Claro que a resposta a essa pergunta ser? diferente em contextos escolares distintos, mas sem d?vida para estar pronto para esse processo, algumas compet?ncias comuns precisam fazer parte do perfil do gestor para que essa lideran?a alcance os horizontes dos princ?pios do Comunidade de Aprendizagem.
Nesse sentido, o gestor escolar precisa ser um mobilizador social, j? que o seu papel passa pelo o exerc?cio de influenciar a atua??o de pessoas e estruturar recursos e esfor?os para o alcance de objetivos educacionais. ? inerente a essa posi??o, no ?mbito da gest?o democr?tica, o aspecto da lideran?a compartilhada, tanto na comunidade interna como externa da escola.
Sobre esse tema, disserta L?ck (2009):
?A lideran?a compartilhada e co-lideran?a exercidas na escola, ? importante que se destaque, ser? tanto mais efetiva quanto mais disseminada for entre as? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? pessoas que participam da comunidade escolar, pelo exerc?cio da lideran?a compartilhada (entre todos os membros da comunidade escolar) e da co-lideran?a? ? ? ? ? ? ? (entre a equipe de gest?o escolar)? (L?ck, 2009, p. 78).
O papel do gestor do Comunidade de Aprendizagem, nas suas pr?ticas de lideran?a compartilhada e gest?o democr?tica, ? assegurar a participa??o educativa da comunidade nas tomadas de decis?o da escola, al?m de espa?os formativos e de aprendizagem. Cabe a ele tamb?m promover o di?logo igualit?rio, e fomentar a cria??o das Comiss?es Mistas (INSTITUTO NATURA, 2017, p.13; 23).
De acordo com o INSTITUTO NATURA (2017):
?O objetivo das Comiss?es Mistas e das Assembleias ? promover propostas e mudan?as mediante debates, consensos e diversidade de opini?es. Essas atua??es s?o pautadas no princ?pio da intelig?ncia cultural, que pressup?e a intera??o de pessoas de diferentes culturas, atrav?s de meios verbais e n?o verbais (a??es comunicativas), com a finalidade de construir entendimentos no ?mbito cognitivo, est?tico e afetivo?. (INSTITUTO NATURA, 2017, p. 46).
Ainda sobre esse tema da descentraliza??o do poder decis?rio nas escolas, Mello (2014) ressalta:
?o que geralmente se pode frequentemente ver nas escolas ? uma gest?o que, por consequ?ncia das press?es e limita??es sob as quais age, acaba por atuar apenas no sentido de ordenar, controlar e punir, numa perspectiva estritamente de administra??o t?cnico-burocr?tica. A pr?pria ordena??o do espa?o e do tempo na escola, a flexibilidade ou a rigidez do cen?rio e avalia??o constantes demonstram isso? (Mello, 2014, p.116).

As escolas transformadas, com a implementa??o da participa??o da comunidade em seu cotidiano, em especial as Comiss?es Mistas, promovem essa possibilidade de deslocar da figura do gestor o controle central das decis?es educativas da escola, o que viabiliza uma maior democratiza??o, mesmo que o diretor escolar n?o tenha em suas pr?ticas essa cultura inclusiva de compartilhar as decis?es.
Portanto, ? fundamental que as Comiss?es Mistas recebam o apoio da Secretaria Educa??o, e demais inst?ncias da educa??o, para compreender os processos de escolha da escola e apoia-la nas prioridades definidas nas Comiss?es.
Sobre a compet?ncia de lideran?a compartilhada, cita L?ck (2009):
?Essa compet?ncia passa pelo enfrentamento de quest?es de relacionamento interpessoal e comunica??o, assim como quest?es relacionadas ao exerc?cio de poder e valores. Essa gest?o trata-se de uma dimens?o abrangente e complexa, de car?ter eminentemente pol?tico, uma vez que d? poder a pessoas, poder esse que ? leg?timo no contexto educacional, na medida em que ? promovido tendo por orienta??o a contribui??o para a melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem e forma??o dos alunos, com a participa??o dos pais, da comunidade interna e externa da escola? (L?ck, 2009, p. 80).

Com isso posto, ? poss?vel se pensar quais compet?ncias tem forte ader?ncia aos princ?pios do Comunidade de Aprendizagem, e a partir desse ponto, desenhar um quadro referencial para gestores escolares.
Para propor um quadro de refer?ncia com as principais compet?ncias esperadas para o um gestor de uma Comunidade de Aprendizagem, esse trabalho utilizar? como base as compet?ncias apontadas por L?ck (2009), em sua obra ?Dimens?es da Gest?o Escolar?.
L?ck (2009) organiza as compet?ncias orientadas para os diretores escolares da seguinte forma:
? Compet?ncias de fundamenta??o da educa??o e da gest?o escolar;
? Compet?ncias de planejamento e organiza??o do trabalho escolar;
? Compet?ncias de monitoramento de processos educacionais e avalia??o institucional;
? Compet?ncias de gest?o de resultados educacionais
? Compet?ncias de gest?o democr?tica e participativa
? Compet?ncias de gest?o de pessoas na escola
? Compet?ncias de gest?o pedag?gica
? Compet?ncias de gest?o administrativa na escola
? Compet?ncias da gest?o da cultura organizacional da escola
? Compet?ncias de gest?o do cotidiano escolar
Considerando o objeto de estudo desse trabalho, ser? realizado um recorte da proposta por L?ck (2009), privilegiando as compet?ncias orientadas para a gest?o democr?tica e participativa, pois essas dialogam perfeitamente com os princ?pios e prerrogativas do Comunidade de Aprendizagem. No entanto, recomenda-se que as demais compet?ncias apontadas pela autora possam ser estudadas e incorporadas ao perfil de gestor do Comunidade de Aprendizagem, por possu?rem forte ader?ncia ao compromisso com a educa??o dial?gica e igualit?ria proposta pelo projeto.
A proposta reunida de nove compet?ncias para uma gest?o democr?tica e participativa, apontadas por L?ck (2009), segue Quadros 1 abaixo:

Compet?ncias de gest?o democr?tica e participativa

1. Lidera e garante a atua??o democr?tica efetiva e participativa do Conselho Escolar ou ?rg?o colegiado semelhante, do Conselho de Classe, do Gr?mio Estudantil e de outros colegiados escolares.
2. Equilibra e integra as interfaces e diferentes ?reas de a??o da escola e a intera??o entre as pessoas, em torno de um ide?rio educacional comum, vis?o, miss?o e valores da escola.
3. Lidera a atua??o integrada e cooperativa de todos os participantes da escola, na promo??o de um ambiente educativo e de aprendizagem, orientado por elevadas expectativas, estabelecidas coletivamente e amplamente compartilhadas.
4. Demonstra interesse genu?no pela atua??o dos professores, dos funcion?rios e dos alunos da escola, orientando o seu trabalho em equipe, incentivando o compartilhamento de experi?ncias e agregando resultados coletivos.
5. Estimula participantes de todos os segmentos da escola a envolverem-se na realiza??o dos projetos escolares, melhoria da escola e promo??o da aprendizagem e forma??o dos alunos, como uma causa comum a todos, de modo a integrarem-se no conjunto do trabalho realizado.
6. Estimula e orienta a participa??o dos membros mais ap?ticos e distantes, levando-os a apresentar suas contribui??es e interesses para o desenvolvimento conjunto e do seu pr?prio desenvolvimento.
7. Mant?m-se a par das quest?es da comunidade escolar e interpreta construtivamente seus processos sociais, orientando o seu melhor encaminhamento.
8. Promove pr?ticas de co-lideran?a, compartilhando responsabilidades e espa?os de a??o entre os participantes da comunidade escolar, como condi??o para a promo??o da gest?o compartilhada e da constru??o da identidade da escola.
9. Promove a articula??o e integra??o entre escola e comunidade pr?xima, com o apoio e participa??o dos colegiados escolares, mediante a realiza??o de atividades de car?ter pedag?gico, cient?fico, social, cultural e esportivo.
CONSIDERA??ES FINAIS
O processo de transforma??o da Sebasti?o Jos? e os bons resultados que a gest?o daquela escola imprimiu no legado do Comunidade de Aprendizagem na cidade de Belo Jardim – PE, como tamb?m as discuss?es levantadas por esse estudo acerca da gest?o democr?tica, s?o refer?ncias para se pensar o perfil ideal do gestor escolar do Comunidade de Aprendizagem.
Mas isso n?o significa que o agente educador que n?o possua esse conjunto de compet?ncias gerencias, n?o possa embarcar no processo de lideran?a de uma escola orientada para o Comunidade.
Sendo assim, as compet?ncias ainda n?o desenvolvidas ou em processo de desenvolvimento podem ser estimuladas e fortalecidas por meio da cria??o de uma ?capacidade conceitual? por parte do gestor, que lhe dar? base para realizar as a??es no ?mbito escolar. Essa apropria??o da base conceitual pode se dar por meio das leituras dos referenciais te?ricos da Aprendizagem Dial?gica e do Comunidade de Aprendizagem, al?m participa??o do processo de Certifica??o promovido pelo Instituto Natura ou mesmo por meio da realiza??o dos m?dulos do Comunidade de Aprendizagem pela plataforma EAD.
Outra maneira de apreender as pr?ticas e por tanto, desenvolver compet?ncia aderentes a proposta do Comunidade de Aprendizagem, ? participando efetivamente das Atua??es Educativas de ?xito, em especial aquelas que envolvem a participa??o educativa da comunidade.
BIBLIOGRAFIA
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CENTRO ESPECIAL DE INVESTIGACI?N EM TEOR?AS Y PR?CTICAS QUE SUPERAN DESIGUALDADES (CREA). (2006 – 2011). Includ-ED. Strategies for inclusion and social cohesion in Europe from education. 028603-2. Sixth Framework Programme. Priority 7: citizens and governance in a knowledge-based society. European Commission.
REDONDO-SAMA, Gisela. Leadership & Community Participation: A Literature Review. Internacional and Multidisciplinary Journal of Social Sciences. University of Cambridge, United Kingdom, 5(1), 71-92, March/July 2016.
INSTITUTO NATURA. Caderno de Forma??o de Comunidade de Aprendizagem. S?o Paulo, 2017.
L?CK, Heloisa. Dimens?o de gest?o escolar e suas compet?ncias. Curitiba: Editora Positivo, 2009.
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MELLO, Roseli Rodrigues; BRAGA, Fabiana Marini; GABASSA, Vanessa. Comunidades de Aprendizagem: outra escola ? poss?vel. S?o Carlos: EDUFSCAR, 2014.

Notas de Rodap?:
1 Ap?s a comunidade aderir ao processo de transforma??o, inicia-se a etapa dos sonhos. Essa fase acontece com base na pergunta: que escola queremos para que todos aprendam mais e melhore a conviv?ncia? Estudantes, professores e demais integrantes da comunidade escolar s?o convidados a registrar seus desejos e expressar como sonham a sua escola.
2 As Comiss?es Mistas ? uma organiza??o participativa heterog?nea formada por professores, familiares, estudantes, dire??o, demais membros da escola e associa??es locais de tomadas de decis?o. O seu objetivo ? promover condi??es democr?ticas de escolha de prioridades da escola e tomadas de decis?o
3 As Atua??o Educativas de ?xito s?o pr?ticas educativas investigadas pela pesquisa INCLUD-ED (2006-2011) e comprovadas cientificamente, que quando aplicadas em qualquer contexto promovem o aumento do desempenho acad?mico dos estudantes, a melhora da conviv?ncia e das atitudes solid?rias.
4 As escolas que aderem a proposta do Comunidade de Aprendizagem passam por um conjunto de etapas de transforma??o, a partir na escola sonhada pelos professores, estudantes, familiares de demais integrantes da comunidade escolar. As etapas de transforma??o s?o: sensibiliza??o, tomada e decis?o, sonho, sele??o de prioridades e planejamento.
5 Os princ?pios da Aprendizagem Dial?gica s?o: Di?logo Igualit?rio; Intelig?ncia Cultural; Transforma??o; Cria??o de Sentido; Solidariedade; Dimens?o Instrumental; Igualdade de Diferen?as.
6 http://www.comunidadedeaprendizagem.com/uploads/materials/12/740922c2359d3ca752de853bbb798930.pdf
7 O giro dial?gico refere-se a queda dos padr?es autorit?rios presentes nas rela??es patriarcais, em contraposi??o a valoriza??o das rela??es sociais baseadas no di?logo e no poder argumentativo nos processos reflexivos e decis?rios, em suas diversas inst?ncias.